sexta-feira, 21 de novembro de 2008

El maestro

A importância de Gustavo Rodriguez Quintal para o mundo ainda está por ser descoberta, Mexicano, engenheiro, escritor, poeta, filósofo, professor, cozinheiro de primeira e eventual amante latino de alguma européia mais descuidada, Gustavo sempre jogou nas onze com desenvoltura de profissional e alma de menino. Instituição da mais nobre estirpe, pertencente à Santíssima Trindade Catalã.

Como não lembrar dos inúmeros Sábados e Domingos passados na cozinha elaborando pratos a quatro mãos? Ali, entre garrafas de vinho (muitas) e nossa inspiração, passávamos o dia inteiro cozinhando, praticamente sentados ao lado do fogão, dando asas à nossa criatividade e brindando à amizade, ao reencontro que o exílio nos proporcionara e, invariavelmente, rindo muito.

É engraçado falar em reencontro considerando que eu não o conhecia antes de chegar a Barcelona e nem ele a mim, no entanto, bastou pouco tempo de convívio para sanar esse verdadeiro equívoco e para termos certeza de que apenas havíamos estado distante um do outro fisicamente, espiritualmente não há dúvidas de que sempre estivemos muito próximos.

Desde que começamos a cozinhar juntos é fato que o meu colesterol subiu uma barbaridade, mas também, como resistir às delícias da cozinha Mexicana já no café da manhã? Apenas para que vocês tenham uma pálida idéia em que consistiam os nossos “desayunos light” aqui vai uma lista básica: fatias de pepino com salsa Valentina (molho Mexicano delicioso e super picante), tlacoyos (tortilha oval sobre a qual se põe cebola, nopales, feijão preto, ovos, queijo e chile), e gorditas de chicharrón (tortilha de milho dentro da qual se coloca torresmo – o chicharrón - frito e prensado com mole, queijo, cebola e, oh supresa, muito chile).

Recordo que tal era o seu amor pela cozinha, que só ele, apenas ele e mais ninguém seria capaz de ter feito o que fez para tentar conquistar uma moça ao ir buscá-la no trabalho tarde da noite munido somente de sua valentia Mexicana e de uma torta gigante para impressioná-la. Ao que parece, a beldade não só se alimentou, como ainda sucumbiu, provou e gostou. Ah, realmente a comida é um dos maiores prazeres que se deve compartir.

Lembro-me ainda de uma tarde passada na Champañeria, verdadeiro pé sujo Ibérico onde podíamos nos embebedar de champanhe barato à vontade e comer tapas a um preço para lá de acessível. Nossa intenção era chegar até a praia, mas, minha alma boêmia redirecionou o nosso curso sob o pretexto de que tinha fome e precisava comer algo. Gustavo como amigo generoso que é e conhecedor da minha natureza foi solidário e não recusou o convite.

Passada meia hora, já totalmente ébrios e secando a terceira garrafa, Gustavo, escorado numa pilastra totalmente sem equilíbrio, começa inadvertidamente a derramar champanhe nos pés de todos à nossa volta que, sem entender nada, se mostram incomodados e algo irritados. Que pasa, tío! – Exclama um dos batizados. Ao que Gus prontamente responde com seu semblante “Mejicanote” inalterado – Tranquilo chaval, es para dar buena fortuna, pá que te vaya bien! Pronto, em um minuto o chão do bar virou um verdadeiro mar de champanhe, com todos animadamente desejando boa sorte uns aos outros e derramando seus copos com entusiasmo nos pés alheios uma e outra vez.

Tratei de pegá-lo pelo braço e sair dali correndo o mais rápido possível antes que a situação degringolasse de vez e fomos cambaleando rumo à praia. Entretanto, não era tarefa fácil avançar, além de o Gustavo estar completamente bêbado (e eu não menos), lhe veio uma veia lírica e começou a atacar todas as lolitas imprudentes que cruzavam o nosso passo, declamando de forma apaixonada seus poemas, que iam mais ou menos assim:

Te busco en el armário del olvido
Bajo una penumbra huidiza de un cocotero triste
Me miras, te miro,
Doy besos de telaraña
Y recuerdo abrazos que traigo atrapados entre la memória y el deseo...

Há há, ao menos essa é a minha paródia dos seus versos que, ao contrário, são merecedores da boa leitura. Enfim, chegamos à praia já no final da tarde e desmaiamos durante umas boas três horas, quando acordamos nos pusemos de gatinhas a procurar os seus óculos que haviam desaparecido sob a areia e tivemos que encarar uma ressaca que seguia firme em nossas cabeças.

Na minha última semana em Barcelona ele me ofereceu um jantar de despedidas e ficamos ali, esperando que o tempo se detivesse e que fosse apenas mais um dentre tantos encontros gastronômicos passados juntos. Já não éramos três, éramos dois e em breve seríamos cada um por si até que o acaso seja generoso com amigos que se querem tão bem e que merecem estar sempre juntos. A importância de Gustavo para o mundo é que pessoas assim são muito raras e a sua sensibilidade, sua simplicidade e o seu abraço, além de tornarem o mundo menos frio e a vida menos chata, fazem sempre muita falta. Hasta pronto maestro!

4 comentários:

fernanda disse...

Eh...realmente amizade igual a esta é dificil de se viver...Também sinto falta, de uma meneira ou outra desfrutava de tudo que vocês cozinhavam...uhmm...e em sua homenagem faremos este domingo um almoço(o 1º, com sua autorizaçao) na casa da Eva!Brindaremos por você, Miguel e Gus!!Vaya trio!!
Saludos con cariño!
Fernanda

Homem Azul disse...

Tenho certeza que será um grande almoço. Que os vaya bonito. Besos para todos.

blogbel disse...

Amizade no exílio é engraçada. Estávamos, Tânia e eu, conversando sobre isso há pouco tempo, inclusive. Fora de casa, sós, somos muito mais flexíveis, fáceis. Aquela pessoa diferente do grupinho-tradicional-de-amigos, tem, no frio europeu, um quê diferente, uma bossa nova. Somos atraídos por todos e prestamos atenção porque todos têm algo de bom a passar. Vemos o que não somos capazes, no nosso "ambiente seguro". É bom. Fazemos amizades com pessoas que não faríamos, nos tornamos pessoas mais acessíveis e flexíveis. Gosto disso. E me surpreendo com os novos amigos que, infelizmente, vem e vão...

Pois é, também temos que lidar com a ausência e com a falta que eles fazem. Ô dureza! Mas ficamos na esperança de que alguém virá para compartilharo friozinho juntos, no chauffage, com um vinhozinho.

Homem de Azul disse...

A experiência do exílio sempre é enriquecedora, sem dúvida ficamos mais flexíveis, mais tolerantes e amadurecemos na porrada. Realmente fiz amizade com pessoas muito diferente de mim, de nacionalidades diversas e que talvez não fossem as primeiras escolhas em terras tupiniquins.

O que eu não esperava ganhar era uma nova família, e é essa a palavra, pelo grau de identificação, afeto e pelo "bond" que uniu 3 caras que se encontraram muito longe das suas casas para não se desgrudar mais (ainda que agora momentâneamente distantes).

 

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