terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O Progresso


Apesar de hoje ser feriado acordei cedo porque, entre outras obrigações matinais, tinha que vir trabalhar. É amigo, estou juntando várias atividades ao meu curriculum de dublê profissional e a última delas é ser dublê de micro-empresário.


Mas tudo bem, apesar do agradável bate-papo com whisquinho tomado ontem na casa da Edith e do Achilles, acordei cedo, sóbrio e disposto a transformar o dia num dia útil.


E lá se vai o Homem de Azul rumo ao Centro, lendo o seu livrinho, sorrindo sozinho no ônibus praticamente vazio, como ele gosta, sem gente falando alto e sem saber das intimidades alheias nem dos detalhes sórdidos explicados pormenorizadamente via celular. E olhe que o ônibus tinha até ar-condicionado, "todo un lujo" nestes tempos de calor acachapante, que isto aqui está mais parecendo Belém do Pará ultimamente.


Pois bem, lá ia eu entretido ainda com o Ubaldo, lendo as suas crônicas, imaginando aquele sotaque Baiano maroto e me divertindo ao imaginar as cenas quando de repente do riso fez-se o pranto e, ah sim, das mãos espalmadas fez-se o espanto. Que raio de barulho é esse?


Realmente, eu até que não posso me queixar muito da minha readaptação em terras cariocas, o retorno era algo desejado e eu tinha convicção de que bastaria voltar a caminhar seminu novamente pelas ruas de Copacabana e tomar meus "Gim Tonics" na Americana nas tardes de Sábado para me sentir como se daqui nunca houvesse partido.


Entretanto, existem coisas que inegavelmente me incomodam, por exemplo, qual é a necessidade de terem colocado televisores nos ônibus desta cidade?


Como se não bastasse o esforço Hercúleo empreendido por mim diariamente na tentativa de alimentar o intelecto, entre comentários picantes, freadas bruscas, trepidações e sacolejos de todo gênero e munido precariamente de uma lente de contato que está meio grau acima do meu, ainda tenho que ser interrompido por uma porcaria de televisor cafona a cortar a placidez da manhã?


Duas coisas podem ser argumentadas contra mim:


a) Não seja maluco e compre uma lente de contato no seu grau;



b) Se te incomoda tanto, pare de andar de ônibus e compre um carro.



Quanto à primeira nada a dizer, é verdade, não é que eu seja excêntrico (tá bom, tá bom, eu sou um pouco, mas nesse caso isso não se aplica), a verdade é que não fazem lentes descartáveis no meu grau exato e eu tenho que escolher por aproximação uma que me torne menos cego. Dessa vez, entretanto, exagerei e não estou enxergando patavinas.


Quanto à segunda devo dizer que sou meio altista e que o ato de dirigir para mim é demasiado penoso, além de ser atividade das mais temerárias, para a população sobretudo, já que, além de meio cego e ansioso, sou muito distraído. De toda forma, ultimamente revi os meus conceitos e estou trabalhando, entre outras coisas, para comprar um auto assim que der. Pedestres tremei!


Enfim, ter saído do meu transe literário por um televisor aos berros em um ônibus me aborreceu sobremaneira e achei mesmo a iniciativa de muito mau gosto. Deve ser a nossa baixa auto-estima tupiniquim que faz com que inventem essas coisas. Queremos que o Brasil seja a Noruega, falamos dele como se estivéssemos na Alemanha e inventamos esses luxos para demonstrar nosso progresso e arrotar nossa superioridade.


Vejam como somos modernos, nossos ônibus têm ar-condicionado e televisão! - Dizemos. Pouco importa que sejam montados sobre chassis de caminhão e que os degraus estejam a quase um metro do chão derrubando nossos velhinhos. O que importa é que temos clima de montanha e Ana Maria Braga sobre quatro rodas...controlados por chauffeurs educados e atenciosos, praticamente ingleses, jamais como os de Luanda ou Belmopan.


E foi assim que cheguei ao escritório com a certeza de que o progresso é uma coisa formidável, não consegui ler mais nada é certo, mas fui trabalhar duro para atender aos apelos do presidente e pra ver se eu consigo, o mais breve possível, finalmente ler...em Paris.

2 comentários:

blogbel disse...

Mon chèrie, ler no metro em Paris é otimo. Em alguns momentos vem um odor à la française é bem verdade, que te distrai um pouco. Mas é so se concentrar novamente.

Aqui é muito engraçado. Os franceses reclamam (ok, a palavra francês associada a esse verbo é praticamente chover no molhado) que detestam justamente a galera que fala em alto e bom som no celular. Mas a verdade é que eles talvez nunca foram à Italia ou ao Brasil. Sabemos muito bem o que é falar alto!

Sendo assim, para nos, o metro parisiense é um recanto silencioso, ideal para os livros. Eu recomeindo.

Durante as férias ai, andei num onibus assim e pensei a mesma coisa: ar condicionado e tv... quem eles querem enganar? Onibus de merda, motoristas enlouquecidos, mais parece que você esta numa panela de pipoca e não num transporte publico.

Mas o fqto é que eles enganam... e o povo gosta.

Homem de Azul disse...

Pois é Belzinha, na Espanha falam mal à beça dos Parisienses, que são estúpidos, frios, antipáticos, etc. e tal. Nunca vou me esquecer de duas coisas:

a)era só cruzar a fronteira Espanha-França para o volume de decibéis diminuir 90%, realmente uma experiência impressioante.

b)nenhuma queixa dos franceses, sempre me trataram com a maior cortesia.

Nosso país é bom, é muito bom, é o que há but...os hábitos estão cada vez mais bregas, o povo cada vez mais mal-educado e o horizonte está mesmo cinza.

Ah o budum francês! Je t'aimai, je t'aime, je t'aimerai...

 

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