terça-feira, 17 de março de 2009

Um brinde

Já faz algum tempo que tomei a decisão de seguir carreira solo, foi uma decisão que, embora não sendo estanque, se manifestou de forma natural e, dadas as circunstâncias do momento, mostrou-se ser a mais acertada...ou isso creio.

O homem em questão sempre foi ansioso por natureza e com uma dificuldade relativamente grande em ficar sozinho, meditando com os seus próprios botões e tomando o seu tempo com a devida e necessária tranquilidade e quietude. De forma que, o ato de “solar” tem permitido um maior conhecimento sobre a sua essência e, igualmente, tem se revelado um excelente exercício de independência, paciência (muita) e disciplina. O único risco que corro é me transformar em um ser algo místico, na linha do pensamento filosófico chinês e começar a ficar chato, analisando e interpretando as energias que me cercam e aonde vai desaguar essa grande aventura que é a vida. Mas não se preocupem, tenho autocrítica e nenhuma vocação para pastor ou para embainhar as espadas a la Musashi e sair peregrinando em busca do auto-conhecimento. O meu caminho, o tao, rumo ao equilíbrio consiste em ler horóscopo de jornal e percorrer as velhas ruas entre o Posto 6 e o Arpoador dia trás dia, tentando, isso sim, cometer erros diferentes. Terão elas condições de redimir-me de meus pecados e livrar-me de meus fantasmas? O tempo dirá.

Na verdade, nem sei por que estou abrindo o post com tais confidências quando iria falar sobre a amizade, inspirado por outro post de um novo velho amigo que tem me brindado com a sua companhia em eventos para lá de agradáveis. Bem, na verdade eu sei, passemos o último fim de semana em revista.

Yo no creo en brujas pero haberlas haylas”. A sexta-feira 13 honrou a fama que tem, foi realmente bastante difícil e, ao fim do dia, nem hesitei quando me convidaram em partir para a Lapa e tomar umas e outras. O que eu não esperava era ir para dito bairro na companhia de pessoas tão inesperadas e que a noite fosse tão divertida. Não tomei umas e outras, tomei todas e voltei para casa sabe-se lá Deus como, a amnésia alcoólica existe e pode ser assustadora.

No Sábado, outro convite inusitado partiu de uma velha e querida amiga e lá fui eu para uma festa que prometia ser, no mínimo, animada. A aniversariante era uma amiga de um amigo da amiga e havia convidado 150 pessoas, ou seja, havia a perspectiva de uma noite muito agradável pela frente.

Existem momentos em que me pergunto se o grande vilão bíblico não terei sido eu ao invés de Judas Iscariotes. Terei jogado pedras na cruz a gargalhar? Se alguém assim o fez, possibilidades existem de que o mesmo já tenha reencarnado e se encontre escrevendo nesse exato momento em algum lugar ao sul do Equador.

Realmente, a festa estava “bombando”, as pessoas não paravam de chegar e dos 150 convidados, pasmem, 95% eram integrantes do público feminino. Que beleza, que colírio para os olhos! Beleza? Jesus, Maria e José, perdão! – Deveria ter dito eu compenetrado e ajoelhado no milho (ou no amendoim, o que mais lhes apeteça).

Eu deveria saber que tinha alguma coisa errada, meus amigos, o menor pé ali era o meu e olhe que eu calço 43 bico largo. Sim, era efetivamente uma festa gay e conforme a noite evoluía, os ânimos se exaltavam e a coisa esquentava. Achei mais seguro ficar a maior parte do tempo sentado bebericando uma cervejinha e conversando com as únicas outras duas pessoas hetero da festa, não por preconceito (não tenho nenhum), apenas por segurança. Do outro lado da pista uma mesa de marmanjos quarentões me encarava com um olhar difícil de descrever (talvez fosse o do retirante),e que, sabe-se lá porque, me inibiu.

Apesar do agudo do Jimmy Summerville no meu ouvido e da Alcione em ritmo tecno, tentei dançar até o limite do possível, mas as “truck drivers” ali presentes se faziam respeitar e me olhavam como se quisessem sair no braço, toda vez que as suas respectivas acompanhantes inadvertidamente roçavam a orla do meu manto. Na verdade, só conheci uma pessoa até hoje que era um mestre em situações desse tipo, apesar de atualmente ser um respeitabilíssimo pai de família, houve uma época em que esse amigo se notabilizou por andar no meio lésbico com a desenvoltura de poucos.

Sujeito brilhante o malandro, descobriu um nicho de mercado pouco conhecido e aproveitado por nós homens e soube extrair dali conquistas memoráveis. Sua estratégia consistia basicamente em fazer o gênero sensível e desinteressado, aproximando-se da alma feminina de forma gradativa e delicada. Quando elas menos esperavam, pumba, caíam seduzidas (meu Deus, por um homem!), e não havia volta atrás. A mim, que nunca tive tais predicados, só me restou evitar os trenzinhos lascivos que se formavam no meio da pista, desviar o olhar das cenas menos familiares, tomar minha cerveja o mais rápido possível e ir meditar sobre o significado espiritual daquela noite no abrigo do meu catre.

Sexta, Sábado, o fim de semana evolui curiosamente, o que me reservará o Domingo?

Cada vez gosto mais desse dia, sobretudo quando passado preguiçosamente ao redor de uma mesa e em boa companhia. Este, afortunadamente, correspondeu às expectativas.

Já faz duas semanas desde que voltei a poder desfrutar das tardes de Domingo da maneira que eu gosto, cozinhando entre amigos numa celebração culinária que, além de ser sempre gratificante, também funciona como um bálsamo para que suportemos os rigores da semana que se inicia.

Nesse Domingo a liga gastronômica mais kool, azul e intelectual do planeta voltou a se reunir para a elaboração de uma Paella Marinera, ou seja, um paella de frutos do mar.

Antes de mais nada, e ainda que me acusem de ser pedante, vale esclarecer que não é paelha, nem paeja, o correto é paella (pronuncia-se paeia), prato típico de Valência, Espanha, e possivelmente o arroz mais badalado que se tem notícia, embora eu saiba que os arrozes caldosos da culinária Portuguesa sejam uma coisa obrigatória, e a ser descoberta por mais de um.

Pois bem, com as bênçãos do tio Adriá, nossa paella a 6 mãos ficou muito boa, principalmente considerando-se que não tínhamos uma paellera, ou seja, a panela grande e rasa ideal para o cozimento do arroz. Mas, é como eu sempre digo, com boa vontade e criatividade na cozinha está tudo resolvido. Como somos meio metido a besta, fizemos um rico fumet de pescado para irrigar o arroz (que nada mais é do que o caldo de peixe de sempre), entretanto, adotamos a nomenclatura em questão porque, além de impressionar os convivas, parece que lhes abre o apetite.

O lado kool, novamente, trouxe toda a sua ciência culinária para corrigir os eventuais desvarios deste ser azul que frequentemente mete os pés pelas mãos e, como se não bastasse, levou um artigo de luxo: açafrão espanhol.

O anfitrião e eu já estávamos felizes achando que aquilo ali era fumo de cachimbo quando fomos advertidos por madame K que na verdade o “fumo” iria desempenhar papel fundamental no prato. Foi por um triz.

A tarde transcorreu de forma magistral, e não poderia ter sido diferente na companhia de anfitriões daquela envergadura.

E aí vale um aparte, o anfitrião em questão, frequentemente modesto nos seus comentários, ainda há pouco estava a menosprezar a sua participação no evento culinário. Falácias!

Cumpre frisar que este teve participação fundamental na elaboração da nossa paella. Quem com zelo comprou as matérias primas necessárias à confecção do prato? Quem nos recebeu com todo carinho em casa e esteve atento a cada mínimo detalhe, dos canapés (um finíssimo queijo de coalho frito na manteiga e acompanhado de geleia de pimenta que estava sublime) ao licor, passando por cafés aromatizados com amêndoas? Meu Deus do céu, pode-se pedir mais? De certo que não.

Mas isso tudo mesmo não tem a menor importância comparado ao prazer que tem sido poder privar de tão boa companhia. Dos velhos amigos eu já nem falo nada que isso é sabido, mas ele e a esposa são realmente especiais, dessas pessoas cuja identificação é imediata e que tem abrilhantado as tardes de comilança com a sua presença e esprit.

Assim que, teço loas às velhas e novas amizades, aos amigos que vêm, aos amigos que vão e aos que espero ter a sorte de ainda descobrir pelo meio do caminho. Os bons amigos são o melhor tempero da vida e na sua companhia, eu sei, não há como os dias passarem em branco ou alguém se sentir sozinho. Tim tim.

6 comentários:

Nicolau disse...

Caro Amigo, excelente post. E que vida social agitada, caceta. Muito interessante a história do seu amigo que teve o tino de descobrir esse nicho específico no mercado. O cara deve ser um gênio, não é?

Mas você exagerou a participação do anfitrião.

E sim, um brinde aos amigos, que ainda aguardam uma outra presença ilustre a qual, todavia, recusa-se a pegar um avião para nos encontrar. Mas tudo bem, esse dia virá.

Abraços

Homem de Azul disse...

Pois Nicolau, o cara é mesmo muito talentoso, e que carisma! Você precisa ver.

A participação dos anfitriões foi o ponto alto da tarde, sobre isso não se discute.

Quando as "parisienses" retornarem, não posso nem imaginar no que irá se converter a farra gastronômica. Prepare o seu estômago. As presenças ilustres são sempre bem-vindas, entretanto, enquanto uns relutam, eu aproveito.

Abraços.

ana k. disse...

ora, rodrigo!

veja o nicolau aqui de modéstia, para variar...

desculpe, mr blue, mas é irresitível:
quanta auto crítica tem o homem com dicção perfeita? huahuahuahuahau!

beijos,

Nicolau disse...

Mas ninguém me deixa ser modesto !! Jesus. Vocês estão criando um monstro.

Homem de Azul disse...

Ms. k, vou acrescentar-te outro adjetivo aos já habitualmente empregados...viperina. ;]

Homem de Azul disse...

Nicolau, não se preocupe, o único que se corre é o de ser avaliado pela Sra. K.

Quanto à vida social agitada, deve ser porque sou uma alma livre e sem filhos.

 

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