quarta-feira, 22 de abril de 2009

En garde!



Em Barcelona costumava frequentar um bar de cavalheiros que ficava, sem sombra de dúvidas, em um lugar esplêndido: a Plaza Real. Tratava-se do Pipa Club, que, como o nome sugere, era originariamente um bar idealizado para que os apreciadores de cachimbo pudessem passar suas horas de ócio em meio a fumaça aromatizada, brandies diversos e, possivelmente, sem serem perturbados por exemplares do sexo oposto, como convém a uma confraria de homens.

O lugar possuía um charme muito particular. Para começar, ficava no segundo andar de um discreto edifício e, para entrar, tinha-se que tocar a campanhia, como se fossemos visitar um parente ou amigo, vamos. Subindo-se por uma tortuosa e húmida escadaria, nos deparávamos com um ambiente de evidente toque inglês, com predominância de madeira escura, tecido bordeaux nas paredes, pesadas cortinas de veludo, cheiro de mofo e luz bruxuleante, exatamente do jeitinho que eu gosto (da pouca luz não do mofo, bem entendido).

Passei muitas noites ali, jogando sinuca, fumando cigarro (meus cachimbos haviam ficado no Rio), evidentemente bebendo bastante e filosofando sobre os dissabores da vida no estrangeiro com senhores de igual condição. Na verdade, minha descrição pode soar pobre e soará, mas o lugar é incrível e tem até mesmo um mini museu do cachimbo com exemplares vindos dos quatro cantos do mundo, incluindo tribos do alto Amazonas.

E aí vamos ao ponto do post, a decoração local incluía quadros de velhas fotografias retratando homens lutando com bengalas (em trajes similares aos do amigo aí acima), e que eram sensacionais.

Não me lembrava de ter visto semelhante cousa em toda a minha vida, mas imediatamente, num arroubo próprio desses de homem, dandy e azul, decidi que iria tentar descobrir mais sobre a prática desse tão nobre esporte.

E efetivamente um dia, para meu deleite, eis que estou com esse meu jeito muito pachorrento, deitado no sofá de casa, zapeando a esmo os canais da magnífica televisão espanhola, quando começa a passar uma reportagem exatamente sobre a luta de bengalas, tradição francesa e cujo nome correto é la canne e que está muito associado ao boxe francês, o Savate.

O esporte, ao que tudo indica, foi inventado pela alta burguesia francesa, a princípios do século XIX, como meio de defesa contra a turba de rufiões e desordeiros que infestavam as grandes cidades Européias, como Paris e Londres.

Dizem que o esporte foi tão difundido nesse período, que chegou a ser mesmo utilizado pelo exército francês. Até na guerra esse povo é chique, já estou até a ver: Mui caro inimigo, tenha a bondade de render-se ou terei que cobrir-lhe de bastonadas em nome de sua majestade. Mon Dieux!

Um dos grandes mestres desse curioso esporte foi Pierre Vigny, que foi professor da London Boxing Club, e que desenvolveu e codificou as técnicas do combate com bengalas. Sua mulher, ao que parece, incentivou as damas da sociedade Londrina a defender-se utilizando a sombrinha como arma letal com resultados surpreendentes, para os pobres punguistas evidentemente.

Infelizmente, com a chegada do século XX, a prática do esporte quase chegou ao seu fim e ficou restrito a pequenos círculos dos clubes de Savate, onde sobreviveu. Foi só a partir dos anos 60, que as bengalas voltaram a ser agitadas e a difundir-se, desde então o número de praticantes não pára de crescer.

Eu mesmo procurei e achei um clube para praticar la canne em Barcelona, entretanto, a volta ao Rio não me deu tempo de fazer a matrícula, comprar o traje apropriado (fraque e cartola) e começar a distribuir bordoadas pela vizinhança contra os cães catalães.

Entretanto, sigo pensando seriamente em comprar uma bengala por motivos evidentes, primeiro, a senilidade caminha a passos rápidos e segundo, a realidade urbana que nos cerca pede medidas extremas no quesito auto-defesa.

Pensando bem, talvez fosse conveniente embutir uma metralhadora na minha bengala para tornar as coisas mais equilibradas. Por outro lado, se a morte for inevitável, que seja encarada com elegância, tudo muito chic e, principalmente, de forma original.

I’m singing in the rain, just singing in the rain....

7 comentários:

Patty Diphusa disse...

Interessante o la canne. Como não entendo nada, fico imaginando que a diferença da esgrima é que vc pode ter a arma à mão quando for até a confeitaria.

Muito bom.

Bjs

Homem de Azul disse...

Exato Patty é por aí, e sem perder a pose.

A verdade é que a plasticidade dos movimentos é mesmo muito bonita.

Beijo.

Nicolau disse...

Amigo,

i.n.a.c.r.e.d.i.t.á.v.e.l.

Sensacional.

Vamos fundar um clube aqui no Rio !!

Vai ser o Real Clube de La Canne e Demais Artes Elegantes de Auto-Defesa Contra a Turba. No brasão podemos pensar na famosa inscrição latina (acho que é Ovídio): "Enfilat Porradis Sine Elegantia Perderem".

Os bad-boys do jiu-jitso que nos aguardem !!!

Excelente.

Abraços

Homem de Azul disse...

huahuahuah só você Nicolau, só você

Vou começar o treino imediatamente. Ontem mesmo, na falta de bengala, achei o guarda-chuva do meu avô que tem o cabo de junco. Pronto para destroçar crânios com o meu tacape urbano. Alez batards!!

Carolina disse...

'a senilidade caminha a passos largos'??? vi você há menos de mês, e nem parecia não...

:)

Homem de Azul disse...

A maquiagem consegue resultados milagrosos Carolina. ;]

Dea disse...

Putz, amo ler as histórias que escreve sobre BCN. Vamos nos ver para tomar umas biritas no RJ..rs.rs.rs.
Saudades de vc sempre!
Dea

 

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