quinta-feira, 4 de junho de 2009

Pernalonga


Nunca irei me esquecer da experiência que foi pisar por primeira vez em um mercado Espanhol. Dentre as muitas coisas que me chamaram a atenção estava a variedade das azeitonas, a qualidade e a diversidade de peixes e frutos do mar (nem parece que somos um país com 8.000 km de costa, perto da Espanha nossos peixes e frutos do mar dão pena), a beleza, a arrumação e o preço das frutas e, principalmente, a disposição das vitrines dos açougues.

Durante toda minha estadia em Barcelona vivi no mesmo lugar, ali, bem ao lado do charmoso Mercat de Sant Antoni, ao lado do Raval e distante apenas dez minutos de caminhada das Ramblas. Desnecessário dizer que um dos meus programas preferidos era exatamente ir ao mercado sob qualquer pretexto, para sentir, comprar (eventualmente beber) e observar.

Que os Espanhóis não são lá muito sutis e que o seu modo de ser é um pouco bruto para padrões Brasileiros eu já sabia, afinal estava na terra do drama por excelência e de emoções mais que intensas (afinal, essa é a graça dos Ibéricos), mas confesso que nada me preparou para a visão de um açougue Espanhol.

Dar de cara com uma infinidade de tripas adornando o mostruário, seguidas de cabeças de carneiro e de porco lado a lado e a me encarar me revirava o estômago a principio. E o que dizer então dos pobres coelhinhos? Ali, ornamentando o display com seu olhos esbugalhados, dentes salientes e totalmente despidos de seus casacos de pele. Brrrr, os imaginava tal qual Roger Rabbit me pedindo ajuda e dizendo pppplease!

Onde está o frango da Sadia? - Gritava por dentro. Aquela embalagem impessoal, higienizada, praticamente artificial e, o que é mais importante, sem membros desnecessários à vista. Procurei, procurei, mas não achei nada que chegasse nem perto. Esto es España! Y hay que ser un hombre chavalito…até para ir ao açougue.

Eu, por diversas vezes quis ajudar os pobres coelhinhos e dar-lhes um fim de vida mais digno, levando-os para casa e fazendo um prato que os enaltecesse e, claro, que me satisfizesse. No entanto, a turma lá de casa era meio frouxa e toda vez que eu cogitava a hipótese, era um chororô miserável.

– Eu não tenho coragem. Dizia uma.

– Tadinho do bichinho, o Senhor é um homem sem coração. Exclamava o outro.

E eu puto sem poder preparar uma coisa que fosse minimamente diferente.

Tá bom, tá bom, eu confesso, uma vez eu fiz coelho, não falei para ninguém o que era e me esbaldei. Depois quiseram me matar, mas aí já era tarde. Até na cozinha temos que ser maquiavélicos às vezes.

Estou contando tudo isso porque esse fim de semana me toca subir a serra e fui comunicado que teremos coelho. Sim senhor, uma beleza, e ainda por cima preparado por um chef Siciliano e sem frescura (por isso mesmo). Até porque é membro honorário da Cosa Nostra e temido até mesmo por seus rivais da Camorra, da Sacra Corona Unita e da ‘Ndrangheta, o fato é que ele inegavelmente impõe respeito. Tenham certeza de que se eu tiver que me ajoelhar e beijar a mão do Capo o farei sem pestanejar e de forma quase religiosa, sentimental até.

Mas sim, o coelho. Gosto muito de coelho, embora ache que exista um número significativo de pessoas que relutam em provar essas requintada iguaria.

O coelho pode ser de monte, caso em que a carne é mais escura e seu sabor mais forte, ou pode ser de criadouro, nesse caso sua carne será rosa e de sabor mais delicado.

Geralmente prefiro coelhos de 1,5kg.até 3kgs. É uma carne versátil e que admite diferentes preparações.

Hoje trago-vos uma versão super fácil e não menos gostosa de coelho com pasta, que é exatamente o que se pretende fazer neste fim de semana, vamos aos ingredientes.

Ingredientes (4 pessoas):

Um coelho médio
1 Cebola
1/2 litro de molho de tomate
1 colher de chá de páprica
250 grs. massa Pappardelli
1 copo de vinho branco seco
50 grs. baby cenoura (cozido)
3 dentes de alho
sal
salsa

Primeiro, corte o coelho em pedaços, marinando-o com uma mistura de alho, sal e salsinha. Deixe repousar 3 horas.

Em uma panela, coloque 3 colheres de azeite virgem. Doure o coelho até que fique com uma cor dourada (vá ser redundante assim...).

Adicione a cebola picada em pedaços pequenos.

Adicione o molho de tomate e em seguida a páprica.

Cubra com vinho e deixe ferver até ficar macio. Isso dependerá do tipo de coelho que usar e do seu tamanho. Se for pequeno e de criadouro 25 minutos são suficientes.

Próximo ao final do cozimento, adicione as cenouras. Enquanto isso vá preparando o macarrão. Após este tempo, escorra a massa e adicione ao cozido, para que incorpore todo o seu sabor e cor. O resultado é um prato "contundente", ideal para um dia frio, como o de hoje.

Humm, espero que experimentem, eu já estou salivando.

Falando nisso, hoje comi um bacalhau que estava de morrer, acompanhado de uma bela taça de vinho....mas isso é outra história.

Bom fim de semana antecipado, o frio e a boa companhia me esperam e eu mal posso esperar.

Até mais.
Singing: no, no, no, it is murder...do you know how animals die...

4 comentários:

Bel Butcher disse...

legenda da foto: era uma vez Prático, Heitor e Cícero.
:-)

Beijos e bom coelho.

Homem de Azul disse...

hahaha, realmente Bel, pobres bichinhos

Obrigado. Beijos e bom fim de semana.

Nicolau disse...

Caraca, eu li o comentário da Bel e fiquei pensando o que o herói troiano e o orador latino tinha a ver com a foto.

Passei meia hora pensando nisso e achei que vocês estavam numa conversa altamente intelectualizada.

Bom, o fato é que pelo que eu me lembro, tinhamos aventado a hipótese de elaborar um coelho. Vamos ter que mudar nosso próximo prato então para sopa de tartaruga.

Abraços

Homem de Azul disse...

Nem tanto Nicolau, tinha mais a ver com as recordações da infância.

Sinto muito pelo coelho, mas com Sicilianos não se discute.

Em tempo: eu adoro tartaruga.

Abraços.

 

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