sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Xilogravuras

Heeps Willard foi um artista pouco conhecido, e eu seguramente nunca teria ouvido falar dele se não topasse com um pequeno álbum que iria mudar a minha vida, ainda quando era adolescente, “Brewing Up With Billy Bragg”. Na capa, uma xilogravura de uma pessoa observando uma cidade industrial da janela, entre telhados superpostos e chaminés, imediatamente me chamou a atenção. Dentro apenas uma voz e uma guitarra, 3 acordes e muito engenho na construção de imagens que misturavam amor e crítica política de forma magistral. Mas não, eu não vou falar do nosso bardo hoje (respirem aliviados), voltemos ao Willard...

A figura era dramática e era linda, melancolia urbana em estado puro e ia de encontro à visão idílica que eu já nutria por essa pequena ilha enfumaçada, já me via não correndo pela campina verde, mas sim trabalhando como operário de fábrica (que alegria!), tomando meu pint ao final do dia com os camaradas e fazendo piquete contra o regime Thatcherista, contra o National Front e sabe-se lá mais Deus contra o que, tipo be a worker just for the sake of it. Ah, que bela época a adolescência, e pensar que alguns acham que ficamos menos estranhos quando os anos passam....

Pois bem, o fato é que estética da capa casava à perfeição com o conteúdo do disco e não perdeu força com o passar do tempo, muito ao contrário. Tanto é assim que aproximadamente 15 anos depois eu a tatuei no braço como tributo estético-musical para a posteridade, até que venham os vermezinhos a banquetear-se às minhas custas.

Pelo que consta, ele também trabalhou fazendo capas para alguns outros artistas da cena pós-punk inglesa, os misteriosos Blanket of Secrecy por exemplo, até que se matou prematuramente.

Confesso que continuo sabendo muito pouco sobre ele e acreditem pesquisei bastante. Quando me encontrei pessoalmente com o Billy naquela tarde memorável, ano passado no Primavera Sound em Barcelona, ele não só se surpreendeu muito ao ver a tatuagem como me confirmou que a idéia era fazer alguma coisa próxima ao trabalho do grande artista gráfico belga Frans Masereel e é fácil entender porque.

Masereel (1889-1972), que era anarquista, colaborou com inúmeras publicações pacifistas e de esquerda ao longo da sua vida e suas xilogravuras, além da urgência do impacto visual, tinham claro sentido social. Temas como o horror da guerra, o caos urbano pós-industrial, a exploração de trabalhadores por chefes indiferentes, melancolia, opressão e desequilíbrio social são recorrentes e compõe uma ode à dignidade humana. Na verdade, basta olhar para a magnífica série “The City” para ver de onde veio a inspiração da xilogravura que mereceu hoje estar sob a pele deste que vos fala.

Eu continuo adorando xilogravuras, achando o trabalho dos dois fantástico e ostentarei a minha tattoo com todo orgulho enquanto o tônus muscular permitir ou a sociedade exigir (ai meu Deus!). Para maiores informações visitem

http://www.iisg.nl/exhibitions/art/indexmasereel.html / http://www.billybragg.co.uk/

ou falem com a minha analista.

Where is my booze? Cheers.






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4 comentários:

ana k. disse...

é engraçado ver xilogravuras tão urbanas...
sempre associo com imagens sertanejas, bem do norte do brasil...
aquelas que estampam cordéis.
beijos,

Dimitri BR disse...

realmente muito maneiro o cordel de manchester. :]

eu gosto muito de branco e preto, ou melhor ainda, preto e nada, e as poucas gravuras que conheço desse cara (todas graças ao caro Sr. Azulão) são mesmo muito interessantes.

só faltou, depois de ter inclusive contato o causo em questão, ilustrar o post com esta imagem aqui:

http://www.orkut.com.br/Main#AlbumZoom.aspx?uid=13869125806980096444&pid=4&aid=1$pid=4

:]

Dimitri BR disse...

ops. contaDo o causo, quis dizer. :P

Homem de Azul disse...

ana k - recomendo que você dê uma olhada nas obras do Oswaldo Goeldi, Lasar Segall ou do Livio Abramo, as do Segall em especial são impressionantes.

No ramo das xilogravuras de cordel dê uma olhada no site do Guilherme de Faria que xilo ou lito é com ele mesmo (e ele agora além de pintar escreve excelentes cordéis).

BR - caro Dimi, a história é longa...quem sabe um dia eu conto. Mas sim, a imagem merece ser postada e um dia será. Frans Masereel é o que há. La lucha continua! ;)

Besos para los dos. Inté

 

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