quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Os tempos estão mudando


‘Come mothers and fathers

Throughout the land

And don't criticize

What you can't understand

Your sons and your daughters

Are beyond your command

Your old road is

Rapidly agin'.

Please get out of the new one

If you can't lend your hand

For the times they are a-changin'.


Isso cantava o gasguita do Dylan, nos idos dos anos sessenta; outro dia, sem que eu me desse conta, essa canção me veio à cabeça enquanto escutava um amigo na hora do almoço.

Me comentava que um antigo flerte seu havia mudado, que agora lutava boxe e que rumores maldosos pairavam sobre a mudança de estilo da jovem boxeadora em questão.

Eu a havia conhecido pouco antes de empreender a grande viagem e me lembrava que era uma menina bonita, não que fosse o meu estilo, em absoluto. Portava certo ar burguês, demasiado bem nascida talvez e sem a maldade requerida provavelmente, mas tampouco se pode negar que não tivesse lá a sua graça (para olhos juvenis, bem entendido).

Pois bem, ao que parece ela mesma se deu conta de que lhe faltava um ‘petit peu de sel’ e resolveu correr atrás de reverter esse quadro com a ajuda de seus punhos. O fato é que meu amigo, que costuma ser mais blasé do que a injusta fama que persegue este narrador aqui, embora não quisesse demonstrar, parecia estar preocupado.

Eu já não me surpreendo com quase nada nessa vida e bem sei que, ultimamente, ser ou não ser já não é uma grande questão. Entretanto, confesso que toda vez que me deparo diante de tal possibilidade fico amuado, de certo até, um pouco triste. É como reconhecer a torpeza e a decadência da nossa classe que, devido a tantos e tão reiterados maus hábitos, permite a fuga em massa desses seres ao lado escuro -ou seria terno - da força.

Voltando ao boxe... Anteontem quando saía do escritório no fim do dia acabei por dar de cara com meu amigo a conversar justamente com a famosa boxeadora. Ele, ao ver-me, soltou aquele seu típico sorriso de canto de boca, algo cínico, como se esperasse algum comentário malicioso ou sarcástico de minha parte, mas eu estava tão cansado que não tive tempo de incorporar o personagem e desempenhar o papel requerido.

Notável a mudança da ‘boxeuse’, havia encorpado sensivelmente e cultivado uma postura altiva e segura bem diferente da primeira e única vez que eu a havia visto. Cumprimentei o casal e fui novamente apresentado a ela que esboçou um sorriso protocolar. Ainda era cedo e o papo curiosamente engrenou, para não ficarmos em pé conversando decidimos ir a um bar próximo para tomar um café.

Eu costumo ter olho clínico para essas coisas, mas contive o espírito crítico para apreciar o fim de tarde entre amigos de forma distendida e relaxada. E a conversa fluía bem, entre outras coisas soube que a sua luva de boxe era cor de rosa, que gracinha. Olhei para meu amigo com um olhar que parecia dizer: Há esperança! E prontamente a imaginei num modelito Londsdale ‘ton sur ton’ desenhando golpes no ar num velho ginásio e cantando: Losing in front of your home town, the crowd call your name, they love you all the same. The sound, the smell, and the spray, you will take them all away and they’ll stay till the grave… (é bastante óbvio, eu sei, mas não pude evitar ).


Tudo ia muito bem, até escutar da nossa pugilista que o último de seus admiradores (com o qual ela estava saindo e acabara de romper) era um babaca. Motivo? Havia enviado mensagens após a primeira saída agradecendo a noite, lhe dedicava demasiada atenção, era muito gentil. Que sujeito mais mole, frouxo, babão... Os homens hoje em dia estão muito carentes! – dizia com cara de nojo.

- E ainda bem que não houve tempo para mandar flores - pensei.

- Suspiro - Não sei, realmente não sei qual o nosso papel na sociedade atual, é certo que relacionar-se parece estar cada vez mais complicado, mas não me parece justo com o rapaz objeto dos adjetivos acima censurá-lo por ter bons modos e ser cortês.

Senti que a veia crítica ameaçava estourar (não podia ser a cafeína, meu café não era expresso). Como assim? Quando atuamos como os selvagens que sempre fomos, sendo machistas, coçando o saco, peidando, arrotando e escaneando tetas e bundas com olhares sôfregos e lascivos somos uns bárbaros, uns brutos, sem a menor chance de roçar a orla do seu manto (ou o que quer que seja). E ai de ti, mortal, se além de tudo não gostares de samba ou se não freqüentares a Lapa!

O que fazer? Ah, sempre se pode ser cavalheiro, atuar à moda antiga e tratar uma mulher com atenção e gentileza, declarando o seu interesse de forma clara, fazendo o tipo fiel e de repente, quem sabe até, dedicar-lhe poemas. Isso sim, não há garantias de que você não vire objeto de piadas no círculo de amizades da pretendida, nem que esta prefira um cafajeste à sua pose de dândi pós-moderno.

O fato é que achei o comentário superficial e equivocado, embora ambas as partes, a sensível - Jackyll e a animalesca - Hyde, parecessem nesse momento tentar fundir-se e encontrar um modus operandi que permitisse a subsistência nos tempos modernos.

Se ela era fancha? Não sei, o fato é que depois do café pedimos um par a mais de cervejas, os ânimos serenaram e ficamos de nos encontrar mais vezes.

Na verdade ela me convidou para ir ao Maraca no próximo Domingo, ver Flamengo e Goiás, e depois tomar um rabo de galo em qualquer quebrada. Torcedor fanático que sou aceitei. Isso sim, a pegarei em casa e pagarei o táxi, as entradas e as biritas, ‘comme il faut’.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A Charneca

Enquanto a inspiração hesita, os deixo nas mãos de um dos maiores observadores sociais e cronistas cariocas de todos os tempos, com vocês Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)!
Então, na esperança vã de me livrar do tormento de amar-te, adormeci um pouco. E se digo vã, amor, é porque logo fiquei a sonhar contigo, a te dizer quanto vai em mim de amor, doce, terno, perdido amor às vezes; candente, nervoso, incontido amor, tantas vezes.
Oh os sonhos de amor, querida! Nele eras tão outra, tão Julieta, tão Isolda, tão Marília. E eu tão o Romeu do segundo ato, tão o Tristão da primeira ária, tão o Dirceu de antes do desterro!
Vinhas lentamente para os meus braços ansiosos, terna e eterna, simples e definitiva, como o barco que parte para o naufrágio. Tu, mulher que já caminhavas para mim, antes mesmo do dia em que te conheci. Para mim, que vivia na certeza de que de algum lugar virias, imponderável, como soem ser os destinos do amor.
No sonho, sorríamos, no sonho éramos nós dois para sempre e um dia. Tu, esquecida de tantas ingratidões, eras o mais puro dos pecados. Eu, vivendo o momento em que o homem prova a si mesmo ter um pouco de eternidade, olvidava antigos dissabores, as noites sofridas, as lágrimas caídas, a dor.
E tão glorioso fiquei, que em mim couberam todas as glórias, abateram-se sobre minha cabeça todos os hinos, e se Beethoven eu fosse, passaria, num átimo, da "Patética" à "Heróica". Que incontida alegria! Desprendí-me de ti e saí a correr pela charneca.
Na verdade eu nem sei o que é charneca, mas isto fica bacana pra burro, em romance inglês.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Pin-up da semana


A maravilha acima é criação de Patrick Hitte, artista contemporâneo francês que tem um traço realmente impressionante, suas pin-ups misturam modernidade com o ar típico da fase clássica do gênero. É hoje em dia o artista de pin-ups de que mais gosto, e agora se vocês me dão licença vou tomar um copo d'água.

10 U.S. Rock Essentials

Seguimos com as listinhas, aqui vai a seleção pessoal e obrigatória de 10 dos melhores discos já produzidos na terra do Tio Obama que devem estar em qualquer coleção que se presa, ou ao menos isso é o que eu acho.
Quando eles querem sai muita coisa boa, inclusive divisores de água do porte de um Velvet & Nico, passando pela ferocidade e crueza de Johnny Cash mostrando toda a sua personalidade em grande momento como quase fora da lei, até a síntese do proto-punk por excelência com toda a urgência das minhas bonecas favoritas, os New York Dolls.
Hey, ho, let's listen to it.
1- Elvis Presley (1956) – Elvis Presley
2 - At San Quentin – Johnny Cash
3 - Pet Sounds – The Beach Boys
4 - The Velvet Underground & Nico – The Velvet Underground
5 - New York Dolls – New York Dolls
6 - Transformer – Lou Reed
7 - The Idiot – Iggy Pop
8 - Daydream Nation – Sonic Youth
9 - Pinkerton – Weezer
10 - Doolittle – Pixies

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

El maestro

A importância de Gustavo Rodriguez Quintal para o mundo ainda está por ser descoberta, Mexicano, engenheiro, escritor, poeta, filósofo, professor, cozinheiro de primeira e eventual amante latino de alguma européia mais descuidada, Gustavo sempre jogou nas onze com desenvoltura de profissional e alma de menino. Instituição da mais nobre estirpe, pertencente à Santíssima Trindade Catalã.

Como não lembrar dos inúmeros Sábados e Domingos passados na cozinha elaborando pratos a quatro mãos? Ali, entre garrafas de vinho (muitas) e nossa inspiração, passávamos o dia inteiro cozinhando, praticamente sentados ao lado do fogão, dando asas à nossa criatividade e brindando à amizade, ao reencontro que o exílio nos proporcionara e, invariavelmente, rindo muito.

É engraçado falar em reencontro considerando que eu não o conhecia antes de chegar a Barcelona e nem ele a mim, no entanto, bastou pouco tempo de convívio para sanar esse verdadeiro equívoco e para termos certeza de que apenas havíamos estado distante um do outro fisicamente, espiritualmente não há dúvidas de que sempre estivemos muito próximos.

Desde que começamos a cozinhar juntos é fato que o meu colesterol subiu uma barbaridade, mas também, como resistir às delícias da cozinha Mexicana já no café da manhã? Apenas para que vocês tenham uma pálida idéia em que consistiam os nossos “desayunos light” aqui vai uma lista básica: fatias de pepino com salsa Valentina (molho Mexicano delicioso e super picante), tlacoyos (tortilha oval sobre a qual se põe cebola, nopales, feijão preto, ovos, queijo e chile), e gorditas de chicharrón (tortilha de milho dentro da qual se coloca torresmo – o chicharrón - frito e prensado com mole, queijo, cebola e, oh supresa, muito chile).

Recordo que tal era o seu amor pela cozinha, que só ele, apenas ele e mais ninguém seria capaz de ter feito o que fez para tentar conquistar uma moça ao ir buscá-la no trabalho tarde da noite munido somente de sua valentia Mexicana e de uma torta gigante para impressioná-la. Ao que parece, a beldade não só se alimentou, como ainda sucumbiu, provou e gostou. Ah, realmente a comida é um dos maiores prazeres que se deve compartir.

Lembro-me ainda de uma tarde passada na Champañeria, verdadeiro pé sujo Ibérico onde podíamos nos embebedar de champanhe barato à vontade e comer tapas a um preço para lá de acessível. Nossa intenção era chegar até a praia, mas, minha alma boêmia redirecionou o nosso curso sob o pretexto de que tinha fome e precisava comer algo. Gustavo como amigo generoso que é e conhecedor da minha natureza foi solidário e não recusou o convite.

Passada meia hora, já totalmente ébrios e secando a terceira garrafa, Gustavo, escorado numa pilastra totalmente sem equilíbrio, começa inadvertidamente a derramar champanhe nos pés de todos à nossa volta que, sem entender nada, se mostram incomodados e algo irritados. Que pasa, tío! – Exclama um dos batizados. Ao que Gus prontamente responde com seu semblante “Mejicanote” inalterado – Tranquilo chaval, es para dar buena fortuna, pá que te vaya bien! Pronto, em um minuto o chão do bar virou um verdadeiro mar de champanhe, com todos animadamente desejando boa sorte uns aos outros e derramando seus copos com entusiasmo nos pés alheios uma e outra vez.

Tratei de pegá-lo pelo braço e sair dali correndo o mais rápido possível antes que a situação degringolasse de vez e fomos cambaleando rumo à praia. Entretanto, não era tarefa fácil avançar, além de o Gustavo estar completamente bêbado (e eu não menos), lhe veio uma veia lírica e começou a atacar todas as lolitas imprudentes que cruzavam o nosso passo, declamando de forma apaixonada seus poemas, que iam mais ou menos assim:

Te busco en el armário del olvido
Bajo una penumbra huidiza de un cocotero triste
Me miras, te miro,
Doy besos de telaraña
Y recuerdo abrazos que traigo atrapados entre la memória y el deseo...

Há há, ao menos essa é a minha paródia dos seus versos que, ao contrário, são merecedores da boa leitura. Enfim, chegamos à praia já no final da tarde e desmaiamos durante umas boas três horas, quando acordamos nos pusemos de gatinhas a procurar os seus óculos que haviam desaparecido sob a areia e tivemos que encarar uma ressaca que seguia firme em nossas cabeças.

Na minha última semana em Barcelona ele me ofereceu um jantar de despedidas e ficamos ali, esperando que o tempo se detivesse e que fosse apenas mais um dentre tantos encontros gastronômicos passados juntos. Já não éramos três, éramos dois e em breve seríamos cada um por si até que o acaso seja generoso com amigos que se querem tão bem e que merecem estar sempre juntos. A importância de Gustavo para o mundo é que pessoas assim são muito raras e a sua sensibilidade, sua simplicidade e o seu abraço, além de tornarem o mundo menos frio e a vida menos chata, fazem sempre muita falta. Hasta pronto maestro!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Pin-up da semana


Archie Dickens (1907-2004) cursou a Slade School of Art em Londres e se tornou um artista free-lancer durante a década de 30 quando as pin-ups estavam começando a se tornar moda.

Imigrou para a Nova Zelândia ao final da década e trabalhou para uma agência de publicidade. Foi exatamente lá onde pintou suas primeiras pin-ups. Após o início da segunda grande guerra, Archie rumou para a Austrália e foi contratado por um moderno estúdio em Sydney. Logo suas pin-ups começaram a se tornar populares (é fácil entender porque, não é?).

Ao final da guerra casou-se com uma Australiana e voltou para Londres onde começou a produzir pin-ups picantes – sem nunca serem vulgares – por primeira vez.

Um Inglês da velha escola, a paixão de Dickens por adoráveis jovens inocentes em situações não tão inocentes tem entusiasmado fans por várias décadas. Rostos angelicais com aura diabólica, uma marca registrada desse grande ilustrador.

É...esse Dickens sabia das coisas. Bang, bang, I’m in love!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Mens sana in corpore sano?

Ser um “madurito interesante” como se auto-definia meu ex-chefe Pepe, requer trabalho árduo, disciplina e, porque não, ajuda de gente especialista no assunto, alguém que possa desvendar tais mistérios e servir como consultor externo e de norte nesses tempos obscuros. Foi assim que, inspirado por esse desejo, e por sugestão de meu compadre Fábio, acabei por comprar um exemplar da Men’s Health!

Quem tem me acompanhado desde que cheguei sabe que mudei consideravelmente meus hábitos alimentares e, principalmente, etílicos (com exceção para o último Sábado onde voltei a pecar, mas enfim...). Na verdade, estou bastante satisfeito com os efeitos dos ares cariocas sobre minha velha e alquebrada carcaça, só o fato de ter deixado de fumar já foi uma conquista e tanto, mas ontem, antes de dormir, senti que algo me faltava, o peito estava oprimido, necessitava de aconselhamento espiritual e foi assim que passei na banca da esquina mais próxima e comprei a dita revista.

Realmente interessante, não se pode negar que a Men’s Health é escrita por e para homens, o texto jovem e moderno (?) está cheio de gírias bacanas (não, bacana não é uma delas), tipo papo de bar e, delírio dos delírios, bar paulista, onde chaveco, pirar e balada dentre outras preciosidades são destiladas de forma próxima como se você estivesse falando com o seu melhor brother, meu! Me identifiquei de cara, além do que, descobri como paquerar, os 5 passos para ter êxito na cama, como me comportar no primeiro oi, no primeiro telefonema, no primeiro encontro, na primeira transa e na primeira manhã, UFA! E ainda que se sigo bebendo Gim Tônica elas vão achar que eu sou arrogante e ambicioso. Não é revelador?

E eu que pensava apenas em como perder a pança, em como tonificar mais a carroceria e talvez até descobrir alguma técnica para melhorar a minha performance na pista, acabei dando de cara com algo ao qual, nós machos, fomos privados ao longo de toda a nossa vida, uma Capricho só para nós :)!! E ainda por cima disfarçada de revista para consumo e deleite da chamada geração saúde, ó glória suprema! Já não seremos discriminados nem ridicularizados por nossos pares, a fonte do conhecimento finalmente nos foi concedida!

Já me sinto preparado para o convívio social, capa de disco na barra do bar, copo na mão, desenvolto, a sedução personificada. E depois de beber, conversar e me demorar nos seus olhos poderei finalmente colocar em ação tudo aquilo o que aprendi, inclusive como acariciar mamilos – para colher os frutos sempre em dobro garante a Men’s Health (confesso que tenho medo, quem me conhece sabe que eu dirijo muito mal e a técnica em questão envolve manobras complexas tais como: comece suave, dobre a atenção, não acelere ainda, cuidado com a curva etc. e tal). Meu amigo, se eu vislumbrasse um mamilo que fosse ao alcance de minhas mãos isso por si só já seria um achado, dois então seria como acertar na loto, o fato é que eles parecem estar cada vez mais tímidos nesses dias e é melhor eu correr que senão não malho hoje.

Até mais ver.
 

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